90 dias no Sudão

A noventa dias que nós, quatro brasileiros, saímos dos quatro cantos do Brasil para atuar como policiais da ONU (United Nations Police – UNPOL), na Missão Híbrida da União Africana e Nações Unidas em Darfur (UNAMID), no Sudão, país palco de manifestações contra o presidente Omar al-Bashir, no poder desde 1989. Somos policiais militares oriundos dos estados do Rio Grande do Norte, Minas Gerais e Paraná que passaram por um processo seletivo que perdurou um ano, composto por provas de idiomas, habilidades policiais básicas de tiro e condução de viaturas, dentre outras avaliações e entrevistas.  Além disso fomos submetidos a um treinamento no Centro Conjunto de Operações de Paz do Brasil, no Rio de Janeiro como parte da seleção. E aqui estamos nós, nessa jornada surreal.

Partimos do Brasil no dia 19 de janeiro de 2019 com destino a cidade de Cartum, capital do Sudão, com cerca de 14 horas de avião até a conexão no aeroporto de Addis Ababa, capital da Etiópia, e mais uma hora até a capital sudanesa. A barreira linguística sentida no primeiro momento do aeroporto de Cartum foi a mais intransponível enfrentada por nós. Era um muro alto, impossível de transpor, um mundo novo. A língua não ajudava, a mímica era inconcebível, comunicar-se era impossível, porém, um policial de ligação da ONU apareceu alguns minutos depois, e a tensão foi sendo dissipada. Apesar da língua oficial do componente policial da ONU ser o inglês na UNAMID, nunca pensei o quanto o inglês é diferente quando falado por diferentes nacionalidades. O ouvido tem que se acostumar todos os dias.

Nos primeiros dias foram de treinamento e adaptação ao clima, novos idiomas e costumes. Saímos de Cartum, a capital, e fomos treinados na cidade de El Fasher, no estado de Darfur, onde o clima é muito seco. A umidade diária muitas vezes não ultrapassou 20%, e era rotina o nariz sangrar. As temperaturas altas derretem os painéis dos veículos da missão e fazem qualquer distância dentro do Super Camp El Fasher parecerem maiores. E o Super Camp não tem esse nome por acaso, ele é enorme. Tem linha de ônibus própria a cada 30min para os funcionários civis, militares e policiais, tem serviço bancário, serviço de entrega de bagagens, quatro mercados, quatro restaurantes, academia, casa de serviço de cabelereiro e pedicure, lavandeira, hospital bem equipado além de vilas e mais vilas para abrigar uma parte de seu efetivo que já chegou a ser de mais de 5 mil entre civis, policiais e militares. Uma dinâmica muito interessante entre os três grupos, onde o respeito pela diversidade, profissionalismo, integridade e principalmente a paciência são elementos essenciais para a execução de um bom trabalho.

O primeiro mês foi de descobertas, e no final do treinamento fomos designados em duplas para dois team sites (equipes de trabalho em determinada localidade). Zalingei, onde atualmente é o novo Quartel General da missão e para Kabkabiya, uma pequena, fria e seca cidade à oeste de El Fasher. Nos team sites cada um de nós fazia parte de uma patrulha diária. A missão era manter contato com a população local, sensibiliza-los em um assunto pertinente a comunidade, reportar incidentes, proteger civis e ajudar na reconstrução dos sistemas sociais de segurança da região. O idioma passou a ser mais simpático após tantas experiencias enriquecedoras. “Tamam” e “grush” são as palavras mais repetidas que significam “tudo bem” e “dinheiro”. Tivemos contato profundo com o a economia local, negociando preço de tomate no mercado, pechinchando pão árabe da melhor qualidade, reclamando das frutas que não estavam boas naquele dia, ou da cebola murcha. Criamos rotina, fizemos parte da rotina de outras pessoas nos team sites e nas comunidades.

 Apareceu uma oportunidade, a UNAMID, através de sua rede de e-mails, abriu vagas para setores especializados, e a mudança estava por vir. Os 4 brasileiros foram submetidos a um processo seletivo interno na missão, cada um aplicou para sua área de interesse. Um foi selecionado para o treinamento de efetivo da polícia local, a Sudanese Police Force (SPF) na especialidade de ações de choque. E outros dois foram selecionados como analistas criminais para o setor de operações da missão. Hoje estamos separados, atuando cada um em um setor que quis se dedicar e mostrando o valor do policial brasileiro também fora do país. A escolha para diversos setores só denota a qualidade e diversidade de habilidades que o policial brasileiro agrega no decorrer da carreira e se diferencia quando comparado com profissionais. Um quarto brasileiro foi transferido para setor de pessoal da missão.

Em breve envio mais detalhes sobre a atividade dos brasileiros nos setores estratégicos da missão. Até o momento muita novidade e conhecendo os processos de cada setor, mas com a certeza que como analistas criminais, instrutores e técnicos administrativos poderemos contribuir mais e melhor para o mandato da missão.



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